------------------------------------------------------- LA BALESTRA

LA BALESTRA

Nome:
Local: MARINGÁ, PARANÁ, Brazil

Adorador de todas as formas de artes. Músico (violão/guitarra/contrabaixo), viciado em literatura, escrever contos, poemas, romance (um em andamento), língua portuguesa, desenhos artísticos. Mas o culpado de meu suor é a advocacia.

20.3.07

Calada sublime

Meu verão andava meio verinho
Senti de calar-me um pouco.
Remover pedras do caminho,
Pra não revolutear feito louco.

Àquela estação que me é história,
Agradeço neste começo de outono.
Sigo em paz minha trajetória,
Anteparado, livre do abandono.

Fiel a mim, sou o mesmo.
E é isso o que me interessa.
Com céu assim vôo a esmo,
Por correntes, e sem pressa.

Olhando daqui de cima,
Vejo que às vezes é boa até a agonia;
Lapidando-me a auto-estima
Dá sentido à minha nova alegoria.

Suores, contemplações e tragédias,
Coisas que vivem a me assustar;
Ora, são quimeras de dramas e comédias.
Por isso é agora a hora de recomeçar
.

4.1.07

Em MG, pimenta na “Poupança jovem” dos outros é refresco

Vejam no Blog da Glória o que é o projeto "Poupança Jovem" para 2007, do governo mineiro de AÉCIO NEVES (http://gloria.reis.blog.uol.com.br/).

Mais difícil que dar nó em goteira. Pior que conseguir empréstimo na CEF, no BB ou bater na mãe. Pelas exigências, me pareceu que essa “Poupança Jovem” é proselitista, feita sob medida para agasalhar os bolsos dalgum apaniguado SANTO nevista.

Minha clausura sazonal

No período das festas que se foram não viajei. Atraquei meu corpo físico de peregrinação neste Plano no porto da reclusão de casa; precisava de energia para a viagem do 2007. Mas canceriano é assim mesmo, gosta de ser caseiro.

Nessas oportunidades fico calado, meditabundo. O silêncio pleno é miraculoso; conduz-me sempre às conclusões do meu teorema. Aliás, Einstein diz que quando “Eu penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em grande silêncio, e a Verdade me é revelada.”. Nada mais verdadeiro!

Num dos auto-indultos dessa minha clausura sazonal coadjuvei com o “freio de mão” que me tolera há 32 anos; a esposa Jacira. Pintei escada, arrumei torneiras, aparei o gramado da casa, podei os pingos-de-ouro da calçada (ô espinhozinho ferino que ele tem.). Bom suor.

Não esqueci de alimentar minh’alma literária: li exemplares do Jornal ReComeço (um jornal dos detentos da cadeia pública de Leopoldina/MG), que a blogueira Glória da Leopoldina (http://gloria.reis.blog.uol.com.br/), sua editora, me mandou, acompanhados de um exemplar do seu livro-denúncia, Escola, instituição da tortura, que em breve comentarei aqui, após uma análise acurada do tema. É coisa séria demais!

Vi que ambos – o jornal e o livro – são duas elogiáveis iniciativas de autêntica solidariedade da Glória e seu grupo contra a miséria humana em Minas Gerais (com reflexos por todo o país), quer na escola pública capenga que desencanta e agride a criança sonhadora, quer na prisão – também pública, mas ainda medieval – que decompõe de vez num pária o homem lá depositado.

Também quase terminei a releitura d’Os Sertões euclidianos, o primeiro e grande diagnóstico do subdesenvolvimento brasileiro, do coronelismo, da opressão feudal, da servidão. Acho que todos, sem exceção, deveríamos ler essa obra. É maravilhosa, na narrativa e no vernáculo.

Ah. Igualmente cuidei da veia lúdica: tirei músicas ao violão, escrevi e gravei alguns insights para composições (de hábito, volto para corrigir depois e complementá-las). Nutri meu blog com uns posts.

Por fim, pus fim numa agonia literata: no romance que venho escrevendo, heureca, saí de um buraco negro que havia no enredo, atalhado que fora pelas desventuras tidas com meus pais pelos hospitais ano passado.

Todavia, já no dia 02 me dei alvará de soltura da clausura doméstica, e retomei o batente no escritório. Como se diz por aí: é preciso derrubar um leão por dia senão a gente morre que nem uma gazela. É que, além dos processos que patrocino, sou síndico de uma Massa Falida desde 1993; é um múnus que me consome, mas ainda resisto. Ossos do ofício.

Exceto os profissionais do jornalismo da cidade-canção, como o bem informado Angelo Rigon, na pracinha dos blogs a maioria do pessoal do areópago segue imersa em férias (Marta Bellini também é exceção; em férias, mas ativa, sempre tem novidades.), distante do teclado Invejo-os. Em breve me vingo, e tiro ao menos uma semana de folga, quiçá em Tamboara ou Minas Gerais. São apenas planos ainda. O Judiciário ressurgirá à minha frente a partir de 2ª feira, dia 08. É brabo!! Tudo volta. Enfrentemos então!

1.1.07

Billy e Bob estavam certos!

Nos derradeiros dias do ano findo cogitei muito sobre minha vida. Senti de fazer um balanço do ano. Mas uma voz gritava:
– Dia 31. Só depois de 31 de dezembro, doutor!
De fato. Deixei para hoje, 1º de janeiro de 2007, seguro de que tudo de 2006 já se foi mesmo.

Quando iniciei o balanço eram 02h14m desse Dia de Ano Novo. A Jacira já dormia. A Michelle e a neta Giovanna embalavam sono à beira-mar catarinense. Fogos ainda espocavam pelos céus do Liberdade – sempre gostei do nome do meu bairro. Preocupava-me o incômodo que os estampidos causam ao Billy e ao Bob. Vigiávamos-nos reciprocamente.

Absorto, insulado, perambulava pela casa a procurar no “8” dos violões, na forma do teclado, no laranja do sofá, nos espíritos que habitam os livros da biblioteca, ou lá fora, nas estrelas que nos olham, o botão start para rever a fita de 2006 da minha vida. De inopino vozeios e intensos clarões de imagens vinham, e depois volviam para o Infinito silente. Nada firmava. Nada.

Certo momento ouvi e vi Elvira em casa, na varanda, no réveillon de 2005, lindamente vestida de amarelo, abraçando lacrimosa meu pai. Eu brincava. Ela sabia que seria o último. E foi.

Na tevê da sala, os baianos se esbaldavam em danças na Band. Na MTV imagens psicodélicas; nada de novo. No Canal 10 a Rede Minas apresentava o documentário “O passaporte húngaro”. O enredo pareceu bonito: um neto de húngaros queria a cidadania húngara, mas tinha contra si a gigantesca burocracia que entrava esse sonho e deságua em corrupções veladas, comuns nessas ocasiões. Não terminei de ver. Voltei a teclar.

De repente, irromperam-me imagens de duas pessoas que eu as tinha como AMIGOS, mas desditosamente nunca o foram. A um dei quatro oportunidades em 19 anos. Ao outro, duas em 6 anos. Todas desperdiçadas. O primeiro foi vulpino, o segundo, pérfido. Têm o mesmo desdouro: egoísmo. Sofri muito com isso; sou dos que se entregam de corpo e alma a amigos. Não me arrependo. Nunca! Fui autêntico com eles... e comigo! É o que me basta.

A fita passava, mas pulava muito; queria ir logo para o the end. Em certo momento acudiu-me a memória um post que escrevi no final de 2005, no meu antigo Blog do Balestra (UOL): “2006, O ANO DO CACHORRO. Viva BILLY e BOB!”. Resolvi relê-lo.Achei a resposta, o cerne, o verdadeiro roteiro que eu procurava do meu filme.

Lá eu confessara ter aprendido com os amigos caninos “que é preciso fazer cara de brabo para a vida, senão a gente é engolido como um pobre pardal na boca do leão. Nem mastiga.” E advertira-me também que, "Quando a gente está lá em cima, sempre aparece alguma águia para arrancar uma pena vital que desafina nosso vôo; quando a gente está lá embaixo, bem no fundo, ainda têm os terríveis tubarões das águas escuras que querem comer a última carninha de nossa costela.”.

No entanto, reconheço: a rotina do ano emboscou-me. Excedi na tolerância. Descuidei-me. Não fiz cara de brabo, como silenciosamente me sugeriram os amigos caninos. Padeci; colhi o que plantei. Cabe-me agora resgatar-me dessas cinzas em 2007. Retomemos o leme! Billy e Bob estavam certos!

29.12.06

Fireman, o bombeiro incendiário

No Jornal da Globo de anteontem (27.12.06) uma reportagem mostrou que as queimadas dos canaviais em Alagoas levantam fuligens que causam problemas ambientais e respiratórios à população que se avizinha das áreas incendiadas.

Entrevistado quanto àquela prática proibida, o técnico de uma usina da região disse ao repórter que por lá a colheita mecanizada da cana, sem queimadas, não pode ser de 100% da área devido aos plantios das encostas e terrenos íngremes, onde só o homem vai. Tudo bem. É razoável.

Todavia, um fato me fez julgar que aquela reportagem seja uma dessas tantas que a Globo manipula a partir de materiais de seus imensos arquivos: o nome inusitado do tal técnico da usina que disse não poder parar com as queimadas, ¿Glênio FIREMAN. O nome é uma ironia do destino ou uma praga que caiu sobre o pai do tal, que talvez admirasse os bombeiros?

É que, até onde sei de inglês, fireman significa bombeiro ...ou não? (diria Caetano)

Ora. Depois de tudo que já vi, e sobretudo após as denúncias daquele repórter que dia desses foi mandado embora da Globo, então não duvido de mais nada acerca da capacidade “inventiva” da Vênus Platinada que tanto mal já causou à história e ao povo do nosso país.

Parodiando o barítono Cid, diria eu: – Dona Globo, apesar do velho e bom Leonel Brizola que tanto a odiava não estar mais por aqui, nós blogueiros estamos de olho por todo o torrão pátrio, vivinhos da silva, silenciosos como as ferrugens que um dia desmoronam a imponente ponte descuidada!

27.12.06

A vitória na busca das derrotas

Na quinta-feira (21.12) estávamos eu e os amigos Fernando Baleeiro e Eurico Hogaha (Baby) ao lado do Edifício Hermann Lundgren, na entrada do Terminal Urbano, quando por ali, vestindo uma calças e camisa claras e com seus indefectíveis óculos ray-ban, passava uma figura ilustre de Maringá: o eterno candidato a tudo, Assendino Santana e seus metro e meio de estatura, ou pouco mais.

Durante o breve encontro, o desembaraçado Assendino - que disse estar com 77 anos de idade - confessou entre outras coisas, um desejo inusitado: o sonho de chegar a DOZE DERROTAS ELEITORAIS!! Em princípio rimos; não entendemos a razão daquela estranha aspiração do homem.

Mas ele logo se justificou afirmando que com isso pretende suplantar o ex-presidente americano, Abrahan Lincoln, que - segundo o próprio Assendino - durante toda sua vida perdeu ONZE eleições.

Contumaz, pelo que já vimos o pequeno-grande Assendino certamente conseguirá emplacar seu sonho: alcançar a vitória pelas sucessivas derrotas! Esperemos.

A “velha” habituée, o jornaleiro e o óbolo

A vida é paradoxalmente engraçada; para uns parece sorrir o tempo todo, para outros perpetua grande carranca. Efêmeras situações. De esse singrar decorrem os sentimentos amalgamados com os quais entijolamos experiências na odisséia diária. Destarte, não antevejo caridade na mão estendida ao pedinte postado nos semáforos dos cruzamentos, mas sim prejudicialidade, porquanto ninguém é, todos estamos, temporariamente pobres ou ricos.

Em Maringá há pedintes habitués que têm até “pontos”. Na Av. Bento Munhoz com a Av. Pedro Taques – meu itinerário para o trabalho – um destes fatos me intriga todos os dias: a presença simultânea, pela manhã, duma senhora sadia duns 65 anos e um rapaz sem um dos braços, duns 28 ou 30, também deficiente visual num dos olhos. Ambos lá estão há meses.

Sob um equipamento teatral que lhe dá uma pseudo-aparência octogenária, composto, entre outros, por um vestido de estampas apagadas, até as canelas, lenço liso esgarçado na cabeça e chinelas encardidas, a “velha”, silente, olha de soslaio para o motorista, estende-lhe uma mão em colher, abaixa a cabeça pela escassa fé na tática, e vai. Infelizmente há quem a alimente no seu mau desiderato, dando-lhe alguns trocados, certamente engordados ao final do dia.

O rapaz de olhos verdes, com duas deficiências físicas, simpático, humílimo, faz o mesmo trajeto. Com alguns exemplares do “O DIÁRIO”, postos de encontro ao peito coberto por um colete publicitário do jornal, e seguros pela única mão, ele facilita aos motoristas a leitura da manchete diária, despertando-lhes o interesse na compra do jornal.

Observo. É evidente o embaraço do jornaleiro com a “velha” concorrendo deslealmente. Ele fica até se acabarem os exemplares da bicicleta cargueira estacionada, e vai. Mas a “velha” continua lá!

No período da tarde, trafegando pela Av. Colombo, no cruzamento com a Pedro Taques, eis o que vejo: a “velha” de novo! Agora concorrendo com os entregadores de panfletos. Indignado, me pergunto: – se com duas necessidades especiais o jornaleiro defende sua dignidade com o trabalho, ¿então por que a saudável “velha” não o imita, quiçá como diarista pela cidade, ao preço atual de R$25,00? Seria um ganho mensal de mais de R$600,00, e bem mais dignos!

Certamente a “velha” pedinte não aprendeu algo de há muito assimilado pelas pessoas de brio, como o rapaz jornaleiro: “O trabalho afasta de nós três grandes males; o tédio, a corrupção e a necessidade." (Voltaire). Esmolar é indigno. Ninguém merece sequer passar por isso. Mas no caso da “velha” que tem tanta saúde, transmuda-se em imoral, revoltante!

Sei que a pobreza é uma questão social, fruto de remota má distribuição de renda no país, porém, já vi muitos exemplos da transitoriedade dessa necessidade. Querer é poder! Nosso miscigenado povo é singularmente solidário, entretanto, a continuarmos apenas assim, nunca sermos respeitados por nós mesmos ou por outras comunidades, eternamente seremos explorados e vistos como um reles povo do Terceiro Mundo.

Não sou administrador público, todavia, justiça seja feita: uma discreta campanha municipal contra a esmola na cidade, com placas e tudo, está sucumbindo ante irrefletidas críticas emocionais, pseudo-moralistas, vindas dos que nada fazem para ajudar o próximo com eficiência. Preferem dar moedas sujas.

Auxílios materiais (e não esmolas ou óbolos) devem ter destinatários responsáveis para que produzam fins plurais: instituições sérias, como p.ex., o ALBERGUE SANTA LUIZA MARILAC. Lá se trabalham os 365 dias do ano para rebrotar no rosto do desesperado o sorriso por um prato de sopa quentinha, uma camisa usada limpa, e uma cama aconchegante. São coisas triviais, mas para nós que disso não padecemos.

Lá sempre é Dia de Natal, sempre é Dia de Ano Novo, de Aniversários... e de Paz no peito do desalentado.

22.12.06

Vencida a 5ª prova

Acabou a prova de novo: my old father Antonio está de volta do hospital. Um pouco debilitado, mas vivo e lúcido, apesar dos 89. É o que me basta por ora.

De novo minha gratidão ao pessoal carinhoso do tão criticado (injustamente) H.U.M, à esposa Jacira, ao Keith Angel, ao Tio Alcides, à grande colaboradora Sônia, e ao mano Ricardo que, superando-se, desta se deu por inteiro.

Agora posso respirar melhor.

Nassau e os terríveis alimários

Depois de ver hoje no Toscorama [desculpem, mas ainda não aprendi a inserir links] a POLÊMICA DE NATAL (Andye Iore), denunciando que não só as mangueirinhas, mas também as placas em volta das árvores da cidade desrespeitam a legislação municipal que trata da ordem da paisagem para uma qualidade de vida melhor, conclui que é assim que as grandes conquistas históricas de um povo vão se diluindo, carcomidas pelos desmandos dos ineptos.

Primeiro o povo desatento elege um præfectus poliglota que vivia em meio às árvores da Amazônia, mas as odiava tanto que agora se vinga daquelas nas nossas porque, quando terminar seu mandato, já tem emprego garantido no exterior (daí suas férias serem sempre lá fora.).

E quando o præfectus não transforma as árvores em cadáveres para o caixa do Instituto da Árvore (¿ou da Madeira?), então as envolve com mangueirinhas iluminadas que, com o campo magnético, a luz e o calor, as aquece e destrói toda vida que nessas árvores habitam.

Mas que das palavras de Maurício de Nassau advertindo a equipe do governo do "Brasil Holandês" (1637/1644) para que se abstivesse de lançar novos impostos, não se esqueça o atual præfectus, deslumbrado pelo cargo efêmero:

"O povo é um rebanho de carneiros que se tosquiam, mas quando a tosquia vai até a carne, produz infalivelmente a dor e, como esses carneiros raciocinam, por isso mesmo, se convertem, muitas vezes, em terríveis alimários."

20.12.06

Reminiscências de um ex-vendedor de fubá

Enquanto ia ao Fórum de Sarandi hoje pela manhã, uma constatação me emocionou: o prédio Germani Alimentos S.A. (depois Ceval e Santista Alimentos S.A.) não está mais vazio.

Sempre que avisto aquele prédio de cimento aparente, sua passarela de concreto ligando o portão ao prédio, a portaria por onde entravam os automóveis, os vigilantes na guaritinha pintada com o símbolo da empresa – uma espiga de milho estilizada, entrecortando um “G” grande –, o gramado verde, tudo ganha vida de novo em minha cabeça. São coisas rebobinadas na memória. Algumas até ressoam-me nos ouvidos.

Ouço os telefones amarelos do televendas tocando sem parar sobre a mesa ovalada, de cerejeira, onde aconteciam as operações, os cadernos dos vendedores abertos sobre ela, o Riki e sua voz rouca, gutural, o Jackson com seu vozeiro elevado, dois telefones aos ouvidos, simultaneamente negociando com um cliente do Ceará e outro de Pernambuco, enquanto eu falava noutro aparelho com Valim, nosso representante em Volta Redonda. Era cansativo, mas prazeroso. O dia fluía.

O departamento era uma área toda cercada de vidros transparentess. Um local sério, mas nunca sisudo; lá também aconteciam coisas hilariantes. Tínhamos um colega, um pseudo-vendedor, boa praça, meio moreno, muito magro, olhos verdes, coração de manteiga, de voz marcantemente anasalada. O sujeito era destaque; de tão tímido, sequer conseguia se identificar ao telefone para o cliente que ligava. O telefone parecia queimar-lhe as mãos. A venda não saía, e ele, com olhos apreensivos, suava.

Nós, os outros vendedores, muitas vezes ficávamos com o telefone colado ao ouvido, fingindo um atendimento inexistente, só para não sermos interrompidos, e podermos ouvir sarcasticamente o que ele falava ao telefone.

Pobre rapaz. Toda fala dele para o cliente do telefonema ficava pela metade. Morria no início, nas primeiras sílabas ou até mesmo nas primeiras letras. Quando víamos que a coisa não ia dar em nada, o socorríamos.

Por força de sua índole calma, o amigo salvou-se da demissão; conseguiu ser transferido para um serviço burocrático na empresa.

Mas por incrível que pareça, hoje ele é um ótimo vendedor duma grande loja de eletrodomésticos de Maringá. Quando o vejo trabalhando nem acredito. Rio disso solitariamente nessas horas, feito um apalermado.

Minha surpresa boa foi que, no mesmo local da Germani, em que antes só falávamos de metas, valores monetários, produções agrícolas, vendas, exportações, e que tudo girava em torno do vil metal que impulsiona esse mundão, mas nos traz tanta agonia, agora cuida-se da educação sistemática de nosso povo. Ali foi implantado o CEBJA – Centro Estadual de Educação Básica de Jovens e Adultos. Fiquei feliz de verdade!

Feliz porque, com isso interrompeu-se o círculo de sucessivas aquisições comerciais daquele imóvel. Ele agora se presta a algo que reputo muito mais importante que o dinheiro: o conhecimento, a alfabetização, a cultura, os olhos abertos para a vida. Com esses ingredientes conseguimos trazer para casa o sustento e nossa dignidade, mas com todo o finito dinheiro do mundo a gente sempre corre o risco de se niilificar de novo.

Perdoem-me. Mas essas são reminiscências de um ex-vendedor de fubá. Eu.